Aquários amazônicos: ambientes de “água negra” despertam interesse

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24/05/2018

O aquariólogo Fábio Abrão fala sobre as principais espécies e dá dicas sobre a criação

Igor Savenhago

Foto: Acervo pessoal/Banco de imagens

Fábio Abrão é aquariólogo, estudioso especializado em aquários. Ele se dedica, com mais afinco, aos peixes amazônicos, para os quais é preciso reproduzir, em ambiente doméstico, os parâmetros físicos e biológicos encontrados na natureza, como coloração da água e elementos como troncos e folhas.

“Precisamos levar ao público informações pertinentes sobre manejo e bem-estar de peixes ornamentais, principalmente os mais sensíveis, como os amazônicos. E também conhecimento e amor por esses animais, que em muitas ocasiões são tratados com desprezo”.

Residindo em Votorantim, SP, ele entrou em contato com a revista por meio do “Fale com a Redação”, no nosso site (http://revistaplanetapet.com.br/contato-redacao.html), e sugeriu o tema, que acabou virando uma entrevista. Aos que quiserem tirar dúvidas, este é o contato dele: [email protected]

A seguir, você confere os principais trechos do bate-papo.

Os aquários amazônicos estão ficando mais comuns no país? Por que essa prática tem crescido?
Fábio Abrão:
Observo que, cada vez mais, há curiosidade por parte dos praticantes da aquariofilia. Mas ainda é um assunto muito desconhecido a nível nacional. Já em países da Europa e América Norte, é algo mais presente e em constante crescimento, inclusive com profissionais da área visitando o Brasil e países que abrangem a Floresta Amazônica, para realização de estudos voltados à aquariofilia. Acredito que, em breve, teremos um crescimento considerável de praticantes.

Quais as características desses aquários que mais atraem as pessoas? 
Fábio:
Certamente é o aspecto natural. Observamos que o conceito de água completamente transparente ainda é marcante na aquariofilia, sendo utilizado, erroneamente, como base de qualidade para um aquário. O que desperta maior interesse e se torna impactante é a coloração da água dos aquários amazônicos, principalmente aqueles que representam ambientes de “águas negras”, cor de chá. E, certamente, elementos como troncos e folhas.  

Aquários amazônicos: ambientes de “água negra” despertam interesse

Tetra-neon, um dos peixes amazônicos que podem ser criados em aquário

 

Quais os tipos mais comuns de peixes amazônicos criados em aquários no Brasil?
Fábio:
São milhares de espécies de peixes que habitam os ambientes aquáticos da Amazônia, mas nem todos são explorados comercialmente pela aquariofilia. Os órgãos ambientais disponibilizam uma lista, em que constam algumas centenas de espécies que são permitidas para coleta e comercialização. O mercado de peixes amazônicos ainda é voltado, em sua maioria, para a exportação, grande parte para países da Europa e América do Norte. No Brasil, encontramos algumas espécies com muita facilidade, que estão entre nós há muito tempo e nem todos sabem que são originárias da Bacia Amazônica. Entre elas, estão os tetra-neon (Paracheirodon innesi), acará-bandeira (Pterophyllum scalare), limpa-vidro (Otocinclus spp.), acará-disco (Symphysodon spp.), rodóstomo (Hemigrammus rhodostomus), tetra-matogrosso (Hyphessobrycon eques), apaiari/oscar (Astronotus ocellatus), coridora (Corydoras spp.) e uma grande diversidade de tetras, cascudos, ciclídeos e demais grupos de peixes.

Qual o perfil dos aquariófilos de peixes amazônicos?
Fábio:
Não sei se podemos definir um perfil no momento, mas certamente são aquariófilos que visam o lado mais científico da aquariofilia. São pessoas que apreciam o aspecto natural desses ambientes, como a cor de “chá” da água ou a presença de folhas, troncos e galhos. Essas pessoas compreendem que, quanto mais natural e menos interferirmos no ambiente, melhor será a qualidade de vida e bem-estar dos organismos que ali habitam. Não posso generalizar e muito menos concluir um perfil, não seria correto tendo em vista que ainda temos muito que trabalhar para difundir os aquários “naturais”, em que tentamos reproduzir ao máximo o habitat natural das espécies que teremos. Mas podemos seguir pelo caminho que mencionei acima.

Você chega a mencionar que alguns desses animais são tratados com desprezo. Por quê?
Fábio:
Vamos partir do princípio de bem-estar animal. Imagine que você é um peixe amazônico, mais especificamente que habita um biótopo onde o pH é ácido (devido a grande quantidade de matéria orgânica em decomposição), água escura (fazendo com que a incidência de luz seja muito pequena), ambiente lêntico e mais uma série fatores peculiares daquele ambiente. Você evoluiu para viver nessas condições, correto? Agora se imagine em um ambiente completamente diferente, como uma bateria de aquários em alguma loja ou um aquário “comunitário” na residência de alguém, onde não se conhece absolutamente nada sobre as suas reais necessidades físicas, químicas e biológicas. Eis o ponto principal para manter um aquário da forma mais natural possível, estudando as reais necessidades de determinada espécie e, claro, atendê-las. Para que o peixe não acabe em um aquário onde ele não vive, mas sobrevive. Por fim, a Amazônia é um dos maiores e mais complexos biomas do mundo, onde é possível encontrar diversas e únicas formas de vida, em um só lugar! Há vários ambientes diferentes que irão resultar em aquários diferentes. Então, se aprofunde no assunto e vá com calma. Pesquise, estude profundamente e não tenha medo de ser tutor de um ecossistema em sua casa. Saia da sua zona de conforto dentro da aquariofilia. Mas só o faça se tiver a plena consciência de que o aquário não é seu… Mas dos peixes!

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